Se calhar já reparaste ou não hehehe e eu sei, se calhar estou um pouco atrasado para estas modas, as prateleiras dos supermercados portugueses encheram-se de barras verdes com o nome “Dubai” lá estampado, promessas de pistácio, kunafa e chocolate a preços que fazem confusão a qualquer carteira. E se olhaste para a coisa com um ar cético, a pensar “espera lá, que mistela é esta?”, não estás sozinho. Vamos ver então esta moda com calma, desde a origem até ao que temos agora…
A Origem, Sem Mistérios nem Teorias da Conspiração
Ao contrário do que parece à primeira vista, isto não nasceu de nenhuma estratégia do Petro-Estado para diversificar a economia de um país petrolífero. A história é bem mais simples e mais humana.
Em 2021, Sarah Hamouda, uma empresária britânica-egípcia que vive no Dubai, andava grávida e com desejos, sem encontrar nenhuma sobremesa que a satisfizesse. Começou a experimentar em casa e acabou por criar a barra “Can’t Get Knafeh of It”, que junta chocolate de leite, um recheio cremoso de pistácio e massa kataifi (os famosos fios crocantes usados na doçaria do Médio Oriente) com um toque de tahini. Isso tornou-se num pequeno sucesso local ao ponto de mais tarde ser criada a marca FIX Dessert Chocolatier.
O salto para o “fenómeno mundial” aconteceu no final de 2023, quando um vídeo de ASMR de alguém a comer a barra dentro do carro se tornou viral no TikTok, com dezenas de milhões de visualizações. O som do chocolate crocante a partir, a cor verde vibrante do recheio, tudo isto funciona lindamente num ecrã de telemóvel. A procura disparou a um ponto tal que a FIX chegou a vender só através de entregas ao domicílio, em horários limitados, o que só alimentou ainda mais o desejo de exclusividade e tal ;D
Será que um Chocolate do Dubai faz Sentido?
E é aqui que entra a parte mais incómoda desta história. O Dubai não produz cacau, não produz pistácio, não produz leite em quantidade relevante e não tem, historicamente, nenhuma tradição de fabrico de chocolate. Os pistácios vêm sobretudo do Irão, da Turquia e dos Estados Unidos, o cacau vem de África ou da América Latina, e depois tudo isto é processado no deserto para ser exportado de avião para a Europa, para a Ásia, para todo o lado.
Compara isso com algo como o chocolate suíço ou belga. Também ali quase nenhum ingrediente principal é local (o cacau também vem de fora), mas existe uma base histórica genuína, séculos de refinamento técnico, uma tradição real de trabalhar o chocolate e, nalguns casos, o uso de leite local como parte da identidade do produto. No caso do chocolate do Dubai, não há nada disto. É um produto de montagem, pensado para o momento viral, sem qualquer ligação ao território que lhe dá o nome.
A conta ambiental também não fecha. Transportar ingredientes caros de vários continentes até ao Golfo Pérsico, processá-los ali e depois voltar a exportar o produto final para o outro lado do mundo é, no mínimo, um exercício de criação de carbono. Não é impossível de justificar comercialmente, mas do ponto de vista da lógica de produção alimentar, é um contorcionismo logístico difícil de defender.
Modas e a Praga das Imitações
Claro que com modas, aparecem logo as cópias, que são a esmagadora maioria do que se compra fora do Dubai. A explosão de procura levou marcas grandes e pequenas de chocolates, como a Lindt, a lançarem as suas próprias versões e aqui a coisa desanda com facilidade.
Basta olhar para uma lista de ingredientes de uma destas barras industriais para perceber a diferença. O açúcar costuma vir em primeiro lugar, o que diz logo muito. O recheio de pistácio raramente é só pistácio, é normal aparecerem amêndoas e avelãs a fazer volume, porque o pistácio puro é caríssimo e tem um sabor subtil que se perde facilmente. Juntam-se ainda óleos vegetais e gorduras lácteas extra para garantir estabilidade numa prateleira de supermercado durante meses.
E aqui está o cerne do problema técnico, o produto original é, na prática, um chocolate artesanal feito para ser consumido no próprio dia ou nos dias seguintes. A massa kataifi absorve humidade e gordura como uma esponja, por isso o estalido só é mantido por muito pouco tempo. Uma barra industrial que precisa de aguentar seis a doze meses numa prateleira nunca vai conseguir reproduzir essa textura. O resultado é quase sempre uma massa mole, pastosa e enjoativa, muito longe do crocante que tornou o produto original famoso.
Fora das marcas grandes, o cenário é ainda pior. O mercado encheu-se de imitações que já nem são chocolates, que usam aromas sintéticos de pistácio em vez do fruto verdadeiro, ou que nem sequer respeitam o conceito original e vendem queques, bolachas ou barras com combinações estranhas de chocolate e pistáchio e chamam isso de “Dubai” na embalagem, porque vende mais do que chamar-lhe, por exemplo, sabor a “pistácio e chocolate”.
Um efeito colateral curioso, e que confirma bem a escala absurda deste fenómeno, é o impacto real no mercado global de pistácio. A procura disparada pela moda do Dubai coincidiu com uma colheita fraca nos Estados Unidos, o maior produtor mundial, e os preços do pistácio subiram cerca de 35% num único ano. O Irão, segundo maior produtor, aumentou as exportações para os Emirados em 40% num período de seis meses. Ou seja, esta “moda de chocolate” já está a mexer com o preço de um fruto seco à escala mundial, o que dá bem a noção de como isto deixou de ser um capricho pequeno, agora é um produto para as “elites”.
Então porque é que estamos a alimentar estas modas?
Se o produto não tem lógica de produção, nem tradição, nem sequer uma qualidade extraordinária (as barras originais são boas, mas nada de extraordinário), a pergunta que fica é porque é que isto se tornou um fenómeno mundial?
A resposta está mais na psicologia do consumidor do que na gastronomia. O nome “Dubai” já é, nas redes sociais, sinónimo de luxo e excesso visual, o que por si só vende mais do que qualquer descrição técnica do produto. Junta a isso a escassez artificial dos primeiros meses, quando praticamente só se conseguia comprar através de entregas limitadas na própria cidade, e tens a receita perfeita para gerar desejo. Sem esquecer o formato, poucas coisas funcionam tão bem num vídeo curto como o som e a imagem de uma barra de chocolate a partir-se ao meio, não interessa se o chocolate é bom ou o recheio é agradável…
Bem, notem que eu não estou a dizer mal do produto original, mas não é preciso ser nenhum especialista em gastronomia para perceber que esta moda assenta em bases muito frágeis. Não há tradição, não há lógica de produção local, o impacto ambiental é real, e o que se compra fora do Dubai é, quase sempre, uma versão diluída ou de pior qualidade do que o produto original. O que ficou provado é que um bom vídeo e uma boa história de marca conseguem vender qualquer coisa, mesmo quando a qualidade e a lógica por trás do produto não é nada de especial.
E já está! Como sempre se tiverem perguntas é só escrever nos comentários e se estão com curiosidade, sim sim eu experimentei alguns destes produtos, mas depois do segundo eu comecei a pensar se devia sequer alimentar estas modas a falar de chocolates assim assim ;D

