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Guia dos Doces e Folares da Páscoa em Portugal por Região

Com a Páscoa a aproximar-se, nada melhor do que falar dos doces e das iguarias mais tradicionais desta festa em Portugal, região a região. Ao contrário do Natal, onde praticamente o bacalhau une praticamente todo o país à mesa, a Páscoa tem uma riqueza regional mais própria… e bem é exatamente isso que a torna tão especial.

De norte a sul, do continente às ilhas, cada região tem os seus sabores, as suas massas, os seus recheios e as suas memórias. Claro que há sobreposições, afinal Portugal é pequeno mas a nossa tradição culinária é enorme, e muitos dos doces aparecem em várias regiões com pequenas variações. O folar doce, por exemplo, está por todo o lado com as suas variações. Mas o que interessa aqui é partilhar o que é mais típico e mais genuíno de cada sítio.

Também quero notar que eu vou ser relativamente amplo com as regiões, muito porque não quero tornar este artigo extra extenso e porque como disse em cima existe alguma sobreposição e certas cidades, vilas e aldeias podem fazer parte de por exemplo o Alentejo mas ter um tipo de folar mais semelhante ao do Ribatejo, como por exemplo o arroz doce branco é tanto comum em Alcochete na região de Setúbal como em Almeirim na região de Santarém ;)

Ahhh e uma nota antes de começar, acho uma boa ideia falar de folar doce, folar de carnes e bola de carne, algo que por vezes até confunde aqui o pessoal por Portugal. Fora de nomenclaturas regionais (alguns sítios chamam uma bola de folar), no geral um folar de carne é, na sua essência, um pão enriquecido (de ovos, gordura, etc) recheado com carnes diversas, normalmente carne de porco, presunto, chouriço, linguiça ou outras carnes. Tende a ter uma massa mais rica e trabalhada, com recheios mais generosos e variados.

Uma bola de carne é tecnicamente muito semelhante, mas tende a usar uma massa mais simples, mais similar a pão, com um recheio mais básico e económico, eu diria que é uma versão ampliada de um pão com chouriço.

Já o folar doce, que é provavelmente o mais reconhecido fora de Portugal é uma espécie de bolo/pão enriquecido e ligeiramente doce, que pode ir de mais fofo tipo brioche para uma massa mais densa mais similar a pão, feita com ovos, azeite ou manteiga, canela e erva-doce, muitas vezes com ovos cozidos lá dentro hehehe. Logo são produtos distintos, embora sejam similares no formato e muitas vezes na nomenclatura e nos aromas.

Guia das Receitas de Páscoa por Portugal

Minho

No Minho, como em praticamente todo o norte de Portugal, a Páscoa é antes de mais a celebração do fim da Quaresma e do regresso à carne. O prato de eleição é o Cabrito Assado, mas para os doces e pães festivos há uma diversidade enorme que vale a pena explorar.

O Folar de Carne do Minho e as Bolas de Carne são ambos muito populares, embora como já se explicou sejam coisas diferentes. No Minho, a linha entre os dois é por vezes ténue e depende muito da família e da aldeia onde se prepara. Para o lado mais doce, o destaque vai para um Folar Doce, com uma massa macia, perfumada e levemente adocicada que se come ao pequeno-almoço ou ao lanche durante a semana da Páscoa.

O Pão-de-Ló é também uma presença obrigatória, como o Pão-de-Ló de Margaride, de Guimarães, é porventura o mais famoso de todos, com a sua textura húmida e quase líquida no centro. Ainda há as Broinhas e os Borrachos ou Bufas Fritas, estes últimos uns fritos de massa simples que se comem polvilhados de açúcar.

Trás-os-Montes

Trás-os-Montes é, sem qualquer margem para dúvida, a região dos folares de carne por excelência em Portugal. A diversidade é verdadeiramente impressionante: existe o Folar de Bragança, o Folar de Chaves, o Folar de Mirandela, o Folar de Freixo de Espada à Cinta, o Folar de Vinhais, cada um com a sua massa, o seu formato redondo e achatado característico, e os seus enchidos e carnes regionais.

Em Chaves, por exemplo, o folar é generosamente recheado com carne de porco, chouriço, presunto e toucinho, e a massa é mais seca e robusta. Em Bragança, o folar pode ter formatos ligeiramente diferentes e massas salgadas até com erva-doce.

Para os doces, os Borrachos voltam a aparecer com presença forte, bem como o Pão-de-Ló e o Folar Doce, que acompanham o café após o almoço de Domingo de Páscoa.

Douro

No Douro, o prato principal da Páscoa tem um nome peculiar e nobre: o Lombo de Boi ou Boi da Páscoa, uma tradição que distingue esta região das demais, onde o cabrito tende a dominar seguido do borrego. O cabrito assado é igualmente muito comum, mas o boi tem aqui um estatuto especial que poucos conhecem fora da região.

Para os doces, destaque para o Folar Doce, o Pão-de-Ló, e o chamado Pão Podre (basicamente uma regueifa doce com um toque de limão e canela) e as Cavacas, umas bolachas crocantes cobertas de açúcar que se encontram sobretudo em Resende e que são uma verdadeira iguaria da região.

Beiras

Nas Beiras, a Páscoa tem como protagonistas da mesa o Leitão Assado, sim, o mesmo de Mealhada, e a célebre Chanfana, o guisado de cabra velha cozinhado em vinho tinto e em panela de barro, especialmente associado à zona de Miranda do Corvo e Figueiró dos Vinhos.

Para os doces e pães da Páscoa, o grande protagonista é o Folar Clássico da Páscoa, aquele pão aromático com erva-doce, canela e os tradicionais ovos cozidos inteiros incrustados na superfície. Este folar da Beira é talvez o mais icónico da Páscoa portuguesa a nível nacional (isto é se comprares um folar no Algarve a probabilidade é ser uma receita da Beira).

Para além do folar, as Empenadilhas da Covilhã são um doce único e pouco conhecido fora da região, pequenas empanadilhas fritas com recheio doce de grão ou doce de gila, muito semelhantes às azevias alentejanas mas com características próprias.

Estremadura e Lisboa

Na Estremadura, o Cabrito Assado reina no domingo de Páscoa, mas é nos doces que a região se distingue com alguma personalidade própria. O Pão-de-Ló de Alfeizerão (de Alcobaça) é um dos pães-de-ló mais famosos de Portugal, com uma textura interior muito cremosa e quase derretida. As Agualvas são umas bolachas regionais muito características da zona de Sintra e Queluz. As Broas de Azeite, mais secas e perfumadas com anis, também têm a sua presença. E claro o Folar Tradicional da Páscoa com erva-doce e ovos cozidos também é omnipresente!

Ribatejo

No Ribatejo, a tradição é muito semelhante à Estremadura com o Cabrito Assado ao domingo, mas a doçaria tem uma identidade própria que merece atenção. O Pão-de-Ló de Alpiarça é outro pão-de-ló de referência nacional, com textura cremosa e sabor intenso a ovo. As Broas de Almeirim e as Broas Castelares (feitas com batata doce e farinha de milho) são dois exemplos de como a doçaria ribatejana soube preservar receitas antigas e muito particulares. Um Arroz Doce de Almeirim, Bolo Podre e o Folar da Páscoa completam a mesa.

Alentejo

No Alentejo, a Páscoa tem no Ensopado de Borrego o seu prato de eleição, um guisado de borrego com muito pão e açafrão que é um dos pratos mais reconfortantes da cozinha alentejana. O cordeiro assado é igualmente muito comum.

Para os doces, o Alentejo tem uma doçaria conventual extraordinária que se manifesta também na Páscoa. O Folar da Páscoa com erva-doce é muito apreciado, aqui com variações que podem incluir azeite (em vez de manteiga) em maior quantidade.

Os Bolos Fintos são uns bolos secos pouco conhecidos fora da região, feitos com azeite, mel e especiarias. As Queijadas de Requeijão de Beja são uma das melhores sobremesas que se podem encontrar na Páscoa alentejana, com uma textura húmida e um sabor a requeijão fresco que é difícil de ficar só por uma. Ou o fantástico Bolo Podre Alentejano super húmido cheio de especiarias.

Algarve

No Algarve come-se o Cabrito à Bicho na Páscoa, uma preparação regional que o distingue ligeiramente do resto do país. Mas é nos doces que o Algarve brilha com maior originalidade, fortemente influenciado pela tradição mourisca e pela abundância de amêndoas da região.

O Folar de Olhão ou Folar de Folha é aqui a versão local do folar doce, com massa muito macia, perfumada e caramelizada. O Folar Amendoado é outra especialidade, um bolo feito com farinha de amêndoa que tem uma textura e sabor completamente diferentes.

Os Queijinhos de Amêndoa e os Doces Finos do Algarve, aquelas pequenas obras de arte feitas com pasta de amêndoa moldada em formas de frutos, são uma presença habitual na Páscoa algarvia e um dos símbolos mais reconhecíveis da região. O Bolo de Mel de Sagres completa este rol de iguarias do sul.

Açores

Nos Açores, o Cabrito Assado é também o prato central da Páscoa, mas as ilhas têm algumas particularidades muito próprias. As Sopas do Espírito Santo, embora associadas sobretudo às festas do Espírito Santo que ocorrem após a Páscoa, começam a ser preparadas e os açorianos já pensam nelas nesta altura do ano.

Para os doces, a Massa Sovada é indiscutivelmente o ex-libris dos Açores na Páscoa, um pão doce, esponjoso, feito com ovos e manteiga, perfumado com erva-doce e limão, que tem uma textura única e inconfundível. O Folar de Linguiça é outra especialidade que mistura o salgado e o doce de forma muito interessante. O Folar da Ilha das Flores tem as suas características próprias que o distinguem dos restantes. Mas claro são nove ilhas e cada uma tem as suas variações, por isso a diversidade é considerável.

Madeira

Na Madeira e Porto Santo, a Páscoa tem como pratos tradicionais o Guisado de Cabrito e o Guisado de Galinha, preparados com especiarias e ervas aromáticas locais que dão um perfume muito característico.

Para os doces, o destaque vai para o Torrão de Açúcar da Madeira, um doce muito particular feito com açúcar e aromas variados, sendo os de fruta os mais populares. O Bolo de Família é um bolo seco e especiado que se encontra nas casas madeirenses durante a Páscoa. O Pão-de-Ló do Porto Santo tem uma versão própria que vale a pena provar. As Queijadas da Madeira e o Pudim de Ovos completam a mesa dos doces das nossas ilhas!

Dicas e Truques para a Páscoa

Para terminar, aqui ficam algumas dicas úteis para quem quer experimentar ou preparar os doces da Páscoa em casa:

  • Para o Folar Doce: A massa deve levedar devagar, de preferência durante a noite num local ameno. Se tiveres o tempo quanto mais lenta a levedação, melhor a textura final. Também os ovos usados na massa devem estar à temperatura ambiente antes de serem incorporados.
  • Para o Folar de Carne: A qualidade dos enchidos faz toda a diferença. Use chouriço e linguiça de boa qualidade, de preferência artesanais. Escolhe também carnes coA carne deve ser fatiada fina para que o folar feche bem e cozinhe de forma uniforme.
  • Para o Pão-de-Ló: O segredo está em não bater demasiado os ovos com o açúcar — o ponto certo é quando a mistura fica esbranquiçada e cremosa mas ainda leve. Retire do forno antes de parecer completamente cozido no centro, pois é suposto ficar húmido por dentro.
  • Para os Queijinhos de Amêndoa: Use amêndoa pelada de boa qualidade e não economize na água de flor de laranjeira, que é o que dá o perfume característico a estes doces.
  • Para guardar os Folares: O folar doce aguentam bem 3 a 4 dias envolto num pano de cozinha limpo, em local seco. Os folares de carne devem ser guardados no frigorífico e consumidos em 2 a 3 dias. A maioria dos doces secos, como broas e biscoitos, aguenta bem 1 a 2 semanas numa lata hermética.
  • Para apreciar melhor: Muitos destes doces ganham muito quando acompanhados de um bom chá de erva-cidreira, uma bebida alcoólica da região (como a Ginjinha no centro do país ou a Poncha na Madeira) ou simplesmente um bom café português.

Espero que tenham gostado de descobrir os sabores da Páscoa de norte a sul de Portugal! E se tiverem oportunidade de visitar uma região nova nesta época do ano, já sabem o que devem procurar nas padarias e pastelarias locais. Ah e se falta aqui algum doce ou prato bem tradicional da Páscoa de alguma região é só dar-me uma nota nos comentários e eu adiciono hehehe. Feliz Páscoa!

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